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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Apocalipse 11:2

Texto: “Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses” (Ap 11:2, NVI).

Muitas traduções inglesas começam o verso 2 com “mas”. A palavra em grego, contudo, não é um “mas” adversativo forte e deveria ser melhor traduzido como “e”. Isso implica em que a exclusão é parte da medição, o que sugere que os gentios (poderia ser traduzido como “nações”) mencionados no texto são realmente parte do professo povo de Deus. Entre aqueles que professam ser seguidores de Deus, a medição divide os verdadeiros seguidores daqueles que apenas declaram ser seguidores. Isso introduz um tema importante que é trazido à tona em vários contextos no Apocalipse. Um pouco antes da vinda de Jesus, Deus agirá de tal maneira que dividirá o professo povo de Deus em dois grupos: seguidores genuínos de Deus e um grupo excluído.

A tradução “exclua” como em “exclua, porém, o pátio exterior” (Ap 11:2) está baseada na palavra grega ekballe que foi utilizada grandemente para excomunhão da sinagoga (veja a história do homem cego em Jo 9:34-35). Uma exclusão similar tem lugar na última parte do Apocalipse onde a Nova Jerusalém funciona como um templo (Ap 21:8, 27; 22:15). Em Apocalipse 11:1-2 isso significa excluir algo que uma vez foi parte do todo. Em outras partes do Novo Testamento o povo fiel de Deus é descrito como pedras vivas que são coletivamente construídas em um templo de Deus (Ef 2:19-22; 1Pe 2:5-10). Assim “medir fora” os verdadeiros cristãos entre os professos é parte dos eventos finais da história da terra. É um processo de determinar quem entre os professos seguidores de Deus são dignos de ser pedras em Seu templo espiritual, a verdadeira igreja. Uma vez que Deus já conhece aqueles que são seus (2Tm 2:19), este processo é menos um decisão do que tornar público o conhecimento que Deus já tem sobre o caráter de Seus professos seguidores.

O pátio externo dado aos gentios nos lembra do muro ao redor do próprio templo no primeiro século. No Museu de Israel (em Jerusalém) pode-se ver um fragmento de um dos marcadores de pedra nas aberturas do muro dizendo que “qualquer gentio que passar deste ponto é responsável por sua própria morte que acontecerá rapidamente”.  O gentio não era bem-vindo dentro do templo dos dias de Jesus! Assim, a linguagem deste texto, que o pátio exterior era o lugar onde os gentios tinham permissão para adorar, encaixa-se bem no contexto do primeiro século (Ap 11:1-2). A raiz grega para “exterior” ou “fora” (exo) é usada novamente em Apocalipse 22:15, onde se retrata a exclusão dos ímpios da recompensa da Nova Jerusalém. À luz do evangelho do Novo Testamente então, os gentios neste texto não devem ser entendidos como não-judeus num sentido étnico, mas como aqueles que rejeitaram o evangelho e falharam em entrar num relacionamento com Jesus, o Messias Judeu.

A palavra para “pisar” (de pateô) é significativa no Apocalipse. Seu uso aqui antecipa os pisadores que são pisoteados no fim dos tempos. Os ímpios que pisam a cidade santa aqui são pisoteados pela ira de Deus no Fim (Ap 14:20 e 19:15). Pisotear também encontra um forte paralelo em Lucas. Em Lucas 21:24 é a cidade santa, Jerusalém, que é pisada pelos gentios até que o tempo dos gentios se complete (Lc 21:24). Uma vez que o pisar mencionado em Lucas começa depois da queda de Jerusalém no primeiro século (Lc 21:20-24) e termina antes que os últimos sinais” sejam mencionados (Lc 21:25-27), o “tempo dos gentios” em Lucas 21:24 parece ser mais ou menos equivalente ao período de 42 meses mencionado cinco vezes de maneiras diferentes no Apocalipse (11:2-3; 12:6, 14; 13:5).

O pano de fundo comum tanto para Apocalipse 11 e Lucas 21 (“pisar”) é encontrado em vários versos em Daniel, onde o povo de Deus é pisado.

“Ele falará contra o Altíssimo, oprimirá os seus santos e tentará mudar os tempos e as leis. Os santos serão entregues nas mãos dele por um tempo, tempos e meio tempo’” (Dn 7:25).
“Então ouvi dois anjos conversando, e um deles perguntou ao outro: ‘Quanto tempo durarão os acontecimentos anunciados por essa visão? Até quando será suprimido o sacrifício diário e a rebelião devastadora prevalecerá? Até quando o santuário e o exército ficarão entregues ao poder do chifre e serão pisoteados?’” (Dn 8:13).

Daniel descreve um poder político-religioso que muda os tempos e as leis de Deus e persegue (pisa) aqueles que resistem. E tudo isso está ligado ao santuário de Deus. O pisar em Apocalipse 11 também antecipa a perseguição dos santos em Apocalipse 13 (Ap 13:5-7, 15-17).
“Pisar” também é usado no Antigo Testamento para a opressão do povo de Deus pelas nações inimigas (Is 63:18; Jr 12:10; Dn 7:7, 19, 23; 8:9-13). Sob esta luz, o pisar por 42 meses aqui parece paralelo às atividades da besta do mar por 42 meses em Apocalipse 13:5-7. Aquela passagem tem fortes alusões à Daniel 7 e seu retrato de perseguição.

O conceito da “cidade santa” precisa ser entendida sob a luz de como o Novo Testamente geralmente lida com as coisas de Israel. Nos tempos do Antigo Testamento, Deus estava localizado com os judeus no templo em Jerusalém e para estar completamente na presença de Deus requeria-se dos Judeus que visitassem o templo em Jerusalém. Assim, havia uma dimensão étnica e geográfica em relação a Deu nos tempos do AT. Mas no NT a dimensão étnica foi expandida ou espiritualizada no relacionamento com o Messias de Israel, Jesus Cristo. Pertencer a Israel estava ligado ao seu Messias (Gl 3:28-29). E a presença de Deus não estava mais localizada em Jerusalém, mas através do Santo Espírito estava igualmente presente em todos os lugares (Jo 4:21-24). Assim, a “cidade santa” neste contexto não deve ser entendida como uma referência a uma cidade literal, mas Jerusalém como um modelo para todos aqueles que estão em relacionamento com Jesus, não importa sua etnia nem sua localização geográfica. Através do Santo Espírito, todos tem igual acesso ao Messias de Israel.
O que foi dito anteriormente pode ser demonstrado ao se ver como “cidade santa” é usada perto do fim do livro. Em Apocalipse 21:1 e 10 a “cidade santa” é outro nome para a Nova Jerusalém. Mas em Apocalipse 21:9, a mesma cidade é chamada de noiva do Cordeiro, o povo de Deus (cf. Ap 19:6-8). Assim, a cidade santa é usada no Apocalipse, não para uma cidade literal de Jerusalém mas como uma maneira de descrever o povo de Deus do NT (Israel), aqueles que são a noiva do Cordeiro, em relacionamento com Jesus.

Os 42 meses do verso 2 e os 1260 dias do verso três parecem ser o mesmo período de tempo. Estes números são repetidos em Apocalipse 12:6 (1260 dias) e 13:5 (42 meses). Eles são também o mesmo que os três tempos e meio de Apocalipse 12:4, cujo número é tomado de Daniel 7:25 e 12:7. No Apocalipse, os 42 meses são sempre associados com as atividades dos ímpios e os 1260 dias são associados com as atividades do povo de Deus. Por séculos estes períodos de tempo foram lidos em termos de um dia por um ano, assim 1260 anos. Veja a explicação do princípio dia-ano nos comentários sobre o capítulo 12.


No livro do Apocalipse, o conceito dos “quarenta e dois meses” está nas duas ocorrências associado com os ímpios (Ap 11:2 e 13:5). Por outro lado, o templo e a cidade de Deus representam o povo de Deus do Novo Testamento. A cidade santa relembra o contraste entre as duas cidades na segunda metade do Apocalipse: 1) a nova Jerusalém (a cidade de Deus e Seu povo) e 2) a Babilônia do fim dos tempos (a cidade de Satanás e dos ímpios). Aqui a cidade santa representa o verdadeiro povo de Deus em contraste com o a grande cidade ímpia (Ap 11:8).

Publicado originalmente por Jon Paulien.

Traduzido por Clacir Virmes Junior.

Nota: Para saber um pouco mais sobre esse comentário, leia aqui.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Apocalipse 11:1-2

Texto: “Deram-me um caniço semelhante a uma vara de medir, e me foi dito: "Vá e meça o templo de Deus e o altar, e conte os adoradores que lá estiverem. Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses” (Ap 11:1-2,NVI).

No capítulo anterior aprendemos que há um período no fim da história entre o fim das profecias de tempo de Daniel e o fim da provação. Durante este período haverá uma proclamação final do evangelho no contexto dos livros apocalípticos como Daniel e Apocalipse. Esta passagem adiciona outro elemento a esta proclamação, o evangelho final a ser proclamado nos últimos dias inclui uma mensagem sobre o santuário celestial que inclui um sério julgamento pré-advento que mede os professos seguidores de Deus. Daniel, Apocalipse e julgamento não são em si mesmos o evangelho, mas eles provêm uma mensagem valorada com particular relevância para o fim do tempo. O valor agregado foi designado para provocar prontidão para o retorno de Jesus. Mas o evangelho é a chave. Se você não sabe como acertar-se com Deus, não importa o que você sabe sobre Daniel e Apocalipse (1Co 13:2). Assim o Apocalipse precisa ser lido em equilíbrio com outras mensagens da Bíblia.

Para dar sentido a esta passagem necessita-se conhecer algo sobre as descrições do santuário/templo no Antigo Testamento. Isto está claro na palavra grega “templo” (naos) no verso 1, lembrando a linguagem do tabernáculo e do templo no AT. Enquanto a palavra naos pode se referir à todo o complexo do templo, incluindo o pátio exterior (normalmente a palavra hieron é usada para o todo), ela normalmente focaliza a parte mais interna do templo, os lugares santos ou, mais frequentemente, o próprio Santíssimo. Jesus era encontrado frequentemente ensinando ou agindo no hieron (Mat 21:12, 23; Mc 11:11, 15; Lc 19:45; e Jo 7:14, para mencionar apenas algumas poucas ocorrências), mas poucos entravam nos recintos mais interiores do templo e apenas o Sumo Sacerdote entrava no Santo do Santos e isso apenas uma vez por ano.

O santuário hebreu foi disposto como dois quadrados lado a lado. O quadrado do lado direito (ocidente) era o pátio exterior, que incluía o altar de holocaustos (para os sacrifícios animais) e a pia (um recipiente para abluções cerimoniais). O tabernáculo propriamente estava no quadrado do lado esquerdo e era dividido em duas partes, o lugar santo com seu candelabro, a mesa dos pães da preposição e o altar de incenso, e o lugar santíssimo contendo a arca da aliança e a presença viva de Deus. No centro do pátio exterior estava o altar de holocaustos. Bem no centro do quadrado do tabernáculo estava a arca da aliança.

No templo de Herodes (aquele conhecido e experimentado por Jesus e Seus discípulos), contudo, o pátio exterior era parte dos recintos mais interiores do templo, proibido para os gentios, mesmo que estivesse do lado de fora. Fora dos recintos mais interiores do templo estava um grande Pátio dos Gentios, no qual nenhuma atividade ritual tinha lugar, mas as pessoas se encontravam e conversavam, aulas poderiam ser dadas e nos dias de Jesus, negócios relacionados aos sacrifícios do templo eram conduzidos. Assim o templo de Herodes era um complexo mais extensivo do que o tabernáculo hebreu original.

De acordo com Apocalipse 11 o pátio exterior não deveria ser medido, apenas o próprio templo deveria ser medido. Isto contrasta com Ezequiel, onde todo o complexo do templo é medido (Ez 40:17-19). Tudo isso levanta a questão: qual “pátio externo” está em vista neste texto – o pátio externo do tabernáculo, com o altar e a pia, ou o Pátio dos Gentios no templo de Jerusalém?

Que altar está em vista aqui: o altar de incenso (que estava no Lugar Santo) ou o altar de holocausto (que estava fora do tabernáculo, mas dentro do complexo maior do templo de Jerusalém no primeiro século)? Por implicação, que “pátio exterior” está em vista aqui, aquele do tabernáculo hebreu ou o Pátio dos Gentios no templo de Herodes?

O pátio exterior desta passagem é “dado aos gentios”. Isso poderia sugerir que o templo de Herodes está em vista, porque no templo de Jerusalém, o pátio exterior do complexo interior do templo (a porção fora do recinto original do santuário, com o altar e a pia) era proibido para os gentios. Eles eram permitidos apenas no Pátio dos Gentios, que estava fora da área na qual todos os rituais do templo aconteciam. Por outro lado, se nos limitamos à evidência do Antigo Testamento (que as referências constantes de João sugerem como primárias em sua mente), o termo grego “pátio exterior” (aulên) é usado apenas para a porção fora do recinto do tabernáculo (Êx 27:1-19; LXX até 38:1-20; Êx 40:29-33; LXX até Lv 6:16 e 26; Lv 8:31) e o mesmo local no templo de Salomão (1Cr 28:6; 2Cr 24:21; cf. Mt 23:35; em 1Rs 28:6 a localização de aulên é ambígua). 2 Crônicas 4:9, por outro lado, sugere que o templo de Salomão pode ter tido dois “pátios exteriores” (aulên) como o templo de Herodes, o “Pátio dos Sacerdotes” e o “Grande Pátio”. O templo de Ezequiel também tinha um pátio interno e um externo (várias formas de aulê na LXX). Assim a questão sobre qual altar e pátio exterior está em se João estaria pensando no tabernáculo mosaico ou no templo de Herodes, que pode ter sido algo baseado em Ezequiel. É a opinião de Stefanovic e minha que o pátio mosaico é a referência provável. Uma vez que os gentios eram permitidos no Pátio dos Gentios, seu pisoteamento não seria digno de menção aqui. Uma “invasão” do pátio interior, por outro lado, seria dramático e chocante e apenas uma tal invasão ocorreu com o saque do templo por Tito algumas décadas antes do Apocalipse.


O altar no verso 1 deve ser o altar de incenso (Êx 28:43; 30:1-10 etc.), uma vez que o altar de holocausto (Êx 27:1-8 etc.) estava localizado no pátio exterior e esta parte do complexo do templo é excluída da medição no verso 2. O altar de incenso estava normalmente localizado no lugar santo (mas cf. Hb 9:1-5), o primeiro e maior dos dois aposentos sagrados dentro do templo. Este altar é descrito em mais detalhes em Apocalipse 8:3-5.

Publicado originalmente por Jon Paulien.

Traduzido por Clacir Virmes Junior.

Nota: Para saber um pouco mais sobre esse comentário, leia aqui.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Apocalipse 11:1

Texto: "Deram-me um caniço semelhante a uma vara de medir, e me foi dito: "Vá e meça o templo de Deus e o altar, e conte os adoradores que lá estiverem" (Ap 11:1, NVI).

Um caniço “foi dado” para João. A voz passiva sem qualquer ponto de referência é bem comum no livro do Apocalipse (Ap 6:2, 4, 8, 11; 8:3; 9:1, 3, 5, etc.). Na maioria dos casos isto é o que poderia ser chamado de "passivos divinos”. Os judeus do primeiro século preferiam não usar os nomes de Deus, mas ao invés disso falar dEle com rodeios, como a voz passiva aqui. Outras maneiras de evitar a palavra “Deus” eram dizer “céu” (“os céus nos ajudem”), o Nome, Senhor. Como um bom judeu, Jesus usou muitas dessas mesmas expressões (reino dos céus, “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados [por quem? Deus] filhos de Deus).

A João é dado um caniço como uma vara de medir e lhe é dito que medisse o templo de Deus. Há uma descrição similar em Apocalipse 21:15, onde é dito a João que medisse a Nova Jerusalém.  Mas também há algumas diferenças entre os dois relatos. Nesta passagem ele recebe um caniço como uma vara de medir e em Apocalipse 21, a vara é feita de ouro. Outra diferença, claro, é que a medição é do templo em uma cena e de uma cidade na outra. Mas a cidade é na verdade como um templo porque é lugar onde Deus habita, ela tem o formato do lugar santíssimo e mostra seu esplendor (Ap 21:11, 15, 16).

Esta cena relembra a visão de Ezequiel de um templo restaurado (Ez 40-48). Ali a medição do templo mostrou o compromisso de Deus com o povo em permanecer como seu Deus apesar de sua apostasia. Ele continuara a ser seu Deus e eles continuarão sendo Seu povo (cf. Zc 2:1-5). O templo é medido para ser restaurado (Ez 43:7-9). O problema que fez como que o templo de Salomão fosse destruído era ter lugares de adoração aos ídolos imediatamente adjacentes ao templo. Esta era a pior forma de sincretismo, misto de adoração a Deus e aos ídolos. Em Ezequiel 43:7-9 Deus prometeu a Israel que se eles deixassem de lado sua adoração mista, Deus reconstruiria o templo e habitaria nele para sempre. A visão de Ezequiel para medir o templo foi no Dia da Expiação (Ez 40:1). No Dia da Expiação o santuário era purificado dos pecados que tinham se acumulado ao longo do ano. Este foi o dia quando Deus veio a Ezequiel para prometer uma restauração do templo em Jerusalém.
Alguns eruditos sugerem que a medição do templo implica numa alusão ao Dia da Expiação. Já notamos o paralelo com Ezequiel 40:1. Mas há também uma alusão a Levíticos 16, o grande texto do Dia da Expiação. Em apenas dois lugares na Bíblia combinam-se o altar do santuário e o povo: Levíticos 16:33 e Apocalipse 11:1-2. Assim, o Dia da Expiação é trazido à tona aqui com suas implicações de julgamento.

Isso destaca o significado de “medir” na Bíblia para este verso. Em 2 Samuel 8:2 Davi fez com que os moabitas derrotados deitassem no chão e os mediu com uma cordel para decidir quem viveria e quem morreria. O conceito de recompensar o bom e o mal é bem disseminado tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Os ditos e parábolas de Jesus descrevem um julgamento no fim dos tempos para avaliar quem serve e quem não serve a Deus (Mt 7:2; Mc 4:24): o trigo e o joio, as ovelhas e os bodes, os peixes bons e ruins, as virgens sábias e as virgens tolas. A combinação da imagética do Dia da Expiação e da “medição” antecipa o julgamento que ocorrerá exatamente antes do fim. Deve-se admitir, contudo, que o pacote de alusões neste parágrafo é possível, mas não certo.

Publicado originalmente por Jon Paulien.

Traduzido por Clacir Virmes Junior.

Nota: Para saber um pouco mais sobre esse comentário, leia aqui.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Apocalipse 11 - Introdução

As divisões de capítulos da Bíblia não são originais, mas foram adicionadas muito tempo atrás depois que a Bíblia foi escrita. Elas algumas vezes impedem ao invés de ajudar nosso entendimento. A divisão entre os capítulos 10 e 11 são um bom exemplo. Em Apocalipse 11:1 João continua interagindo com o anjo de Apocalipse 10, mas esta conexão pode ser perdida se se focaliza na divisão dos capítulos ao invés de na natureza contínua da história. Muitos que tem estudado este capítulo cuidadosamente consideram-no um dos mais difíceis de entender em toda a Bíblia.

A primeira parte do capítulo 11 (vv. 1-13) é uma continuação da cena em Apocalipse 10:8-11. Apesar de o poderoso anjo e o rolo parecerem perder-se de vista, João continua a interagir ou com a "voz do céu" (Ap 10:4, 8) ou com o anjo do rolo (Ap 10:1-7, 9-10). Esta passagem é ainda uma parte da sexta trombeta que cobre o período desde o fim das profecias de Daniel até o fim da provação (cf. comentário sobre Ap 10:7). Este também é o tempo de reunião para a batalha do Armagedom (cf. Ap 9:13-21 e 16:1-16). É a mensagem que deve ser profetizada para todas as nações (Ap 10:11) e a amargura que todos experimentarão ao dá-la (Ap 10:9-10).

Há importantes conexões entre os capítulos 10 e 11 (1-13): João; a voz do céu; povos, nações e línguas; verbos como erguer-se, dar, comer e cumprir; substantivos como boca, voz, nuvem e pé; e por fim mas não menos importante, profetas e profetizar. Há também uma conexão entre esta passagem e a passagem da sexta trombeta de Apocalipse 9:13-21. Em ambos os lugares fogo vem da boca(s). Há palavras em comum como anjo, ferir, matar, adorar, ver, poder, altar, remanescente e praga. Assim a história das duas testemunhas é uma contraparte clara dos ais da sexta trombeta.

Esta seção pode ser estruturada como segue:

A) Mensuração do templo (1-2)

B) A identidade das duas testemunhas (3-6)
1) Profetizando por 1260 dias (3)
2) Estar diante do Senhor (4)
3) Sua autoridade e poder (5-6)

C) A morte, ressurreição e ascensão das testemunhas (7-13)
1) A morte e ressurreição das testemunhas (7-10)
2) Sua ascensão (11-12)
3) Terremoto e remanescente (13)

O “profetizar de novo” de João (Ap 10:11) parece ser elaborado no templo restaurado de Apocalipse 11:1-2, na experiência das duas testemunhas durantes os 1260 dias (Ap 11:3-6) e na ressurreição e ascensão das duas testemunhas em Apocalipse 11:11-13. Isso é confirmado pelo repetido uso de “profeta” e “profetizar” no capítulo (Ap 11:3, 6, 10). O destino destas duas testemunhas martirizadas (Ap 11:7-10) também parecem ilustrar a amargura de comer o rolo em Apocalipse 10:9-10. O rolo em si mesmo são boas novas mas trás tempos ruins.


As duas testemunhas mesmas também tem de profetizar de novo. Deixe-me explicar. Os períodos de tempo neste capítulo nos lembram de ler este capítulo à luz dos textos de fundo de Daniel 12 ("tempo, tempos e metade de tempo"). Os gentios pisarão a santa cidade por quarenta e dois meses (Ap 11:2) e as duas testemunhas profetizarão em pano de saco por 1260 dias (Ap 11:3). Todos estes três períodos de tempo são o mesmo, perfazendo três anos e meio. Assim a experiência inicial destas duas testemunhas ocorre durante o tempo das profecias de Daniel, então as testemunhas “profetizam de novo” depois do fim dos 1260 dias. Muito de Apocalipse 11:1-6 na verdade precede Apocalise 10:7-11 no ponto do tempo real.

Publicado originalmente por Jon Paulien.

Traduzido por Clacir Virmes Junior.

Nota: Para saber um pouco mais sobre esse comentário, leia aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Uma Torah Sefer na Biblioteca Bologna Pode Ser o Mais Antigo Rolo Conhecido da Torah

O erudito Mauro Perani datou este rolo da Torah Sefer da Biblioteca da Universidade de Bologna entre os séculos XII e XIII d. C., tornando-o o manuscrito mais antigo da Torah Sefer existente no mundo. Foto: Alma Mater Studiorum Universita' di Bologna/AP
O erudito italiano Mauro Perani recentemente descobriu o que ele acredita ser o mais antigo rolo completo da Torah. A recém datada Torah Sefer – um rolo da Torah manuscrita contendo os textos completos de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – foi escrita entre 1155 e 1225 d. C. O valor monumental do documento apergaminhado passou despercebido por quase um século; em 1889 ele foi erroneamente catalogado na Biblioteca da Universidade de Bologna como uma Torah Sefer do século XVII. Enquanto compilava um catálogo de manuscritos hebraicos guardados na biblioteca, Perani reconheceu que a escrita no rolo de quase 36 metros de comprimento era significativamente mais antiga do que a data do catálogo. Além disso, o rolo não seguia os padrões escribais estabelecidos na virada do século XIII por Maimônides, a principal figura intelectual do judaísmo medieval. A análise paleográfica foi seguida por testes de carbono 14 na Universidade de Salento e na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign, que confirmou a data entre os séculos XII e XIII.

A Torah Sefer é o rolo da Torah completo mais antigo conhecido; contudo, não é a Torah mais antiga existente.  Os códices Alepo e Leningrado, cada um contendo o texto completo da Bíblia Hebraica, foram escritos até dois séculos antes do rolo da Torah da Universidade de Bologna. O códice Alepo, do século X, um manuscrito apergaminhado de 760 páginas, foi o mais antigo texto bíblico completo contendo a versão que foi finalmente selecionada e aceita como o texto mais autoritativo no judaísmo. O texto foi completado com sinais vogais, pontuação, notações para a entoação litúrgica e notas textuais. Contudo, ele foi avariado e páginas foram perdidas durante tumultos em Alepo em 1947.[1] O códice Leningrado, escrito por volta de 1010 d. C., é atualmente o mais antigo manuscrito completo da Bíblia Hebraica. Tanto o volume de Alepo como o de Leningrado são códices (livros com páginas ou folhas), que são diferentes de rolos. Em um artigo da BAR[2] discutindo o códice Leningrado,[3] os eruditos James A. Sanders e Astrid Beck escrevem:

Tão cedo quanto o primeiro século d. C., os eruditos cristãos começaram a transmitir suas obras santas em códices ao invés de rolos, e no terceiro século o códice era padrão. No mundo judaico, contudo, o códice não foi adotado até por volta do século sete. O rolo tradicional, ou livro-rolo (uolumen, em latim, de onde vem nossa palavra “volume”), continua a ser usado hoje para leitura do texto sagrado nas sinagogas. Estes rolos para leitura do texto sagrado, contudo, contêm apenas os cinco livros de Moisés. Nenhum rolo é grande o suficiente para conter toda a Bíblia Hebraica.

[…]

Enquanto os códices Alepo e Leningrado são as versões mais antigas completas da Bíblia Hebraica, a tradição da sinagoga dita que a porção semanal da Torah seja lida de um rolo, conhecido como Torah Sefer. O rolo da Biblioteca da Universidade de Bologna apresenta-se como a mais antiga Torah Sefer existente. Contudo, muitas questões permanecem. Onde o rolo foi escrito e como ele foi parar em Bologna? O comunicado a imprensa da Biblioteca da Universidade de Bologna, publicada no Facebook em 28 de maio, destacou o relacionamento estendido da cidade com manuscritos históricos da Torah:

A descoberta parece confirmar a ligação que une Bologna e a Torah: foi na cidade de Bon-lan-yah, a pronúncia em dialeto que em hebraico significa: “Nela habita o Senhor”, onde em 1482, a primeira edição do Pentateuco hebraico foi impresso e hoje é Bologna que declara que o rolo da Torah mais antigo está guardado e preservado em sua biblioteca universitária. Em 1546, o artigo 50 dos Estatutos de uma confraria caritativa judaica, constituída naquele ano, parafraseou o verso de Isaías 2:3:  “Porque de Sião sairá a lei” dizendo: “Porque de Bologna sairá a lei”, referindo-se à primeira edição do mais sagrado texto que o judaísmo possui, impresso 62 anos antes em sua cidade.

Traduzido e editado por Clacir Virmes Junior.




[1] Yosef Ofer, “The Shattered Crown: The Aleppo Codex, 60 Years After the Riots,” BAR, September/October 2008.
[2] Biblical Archaeology Review.
[3] Astrid Beck and James A Sanders, “The Leningrad Codex,” Bible Review, Aug 1997.
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